A Tradição e as técnicas em “Kong: Skull Island”

Por Renan Villalon

Filmes nostálgicos, ou que remetem a obras clássicas e icônicas de Hollywood, se tornam cada vez mais constantes para o grande público, e produtos direcionados pela cultura pop são um dos principais carros chefe dentro dessa curiosa oferta. Kong: Skull Island (Kong: A Ilha da Caveira), de Jordan Vogt-Roberts, reconhecível como um reboot e não necessariamente como um remake do primogênito King Kong (1933), trata-se de um filme que pode gerar um dos retornos contemporâneos sobre um dos mais excêntricos tipos de filmes: o dos monstros gigantes do cinema. Vejamos, portanto, algumas de suas características.

O roteiro de Kong é considerado como dentro do gênero de aventura, ação e fantasia (pelo IMDB), com diversos elementos extravagantes (com destaque especial aos monstros), mas esse reboot também traz a temática de sobrevivência na selva e/ou de conflitos militares – como a fotografia da cena do primeiro encontro com Kong lembrando uma das icônicas sequências de Top Gun (1986) – o que já propõe algumas modificações à história original.

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“Kong: A Ilha da Caveira” chega aos cinemas resgatando os monstros gigantes. (Foto: Divulgação)

Conforme o esperado, há uma imensa diversidade de criaturas gigantes, indo desde aranhas que ultrapassam a altura das árvores até lagartos com uma extensão maior do que o próprio e principal monstro personagem da trama. Isso acaba por demonstrar todos os perigos da ilha, mas também reconhecemos o intuito de transformarem a figura ameaçadora de Kong em um líder que mantém o equilíbrio da natureza nesse ambiente. Equilíbrio que, curiosamente, será ameaçado tanto pelo “progresso científico” (através da destruição e invasão do homem à natureza), quanto pelo aspecto militar da infantaria que acompanha os cientistas na expedição (com uma típica temática de vingança e de domínio do homem sobre a natureza) – ambas características do roteiro que demonstram um aspecto crítico sobre a figura do homem perante a natura, mesmo que sem um grande aprofundamento dessa possível ideia.

Mas gêneros com monstros gigantes também se trata do cinema enquanto espetáculo midiático, e essa ideia não é menosprezada pela produção. Um aspecto importantíssimo é o embate e a forma como as lutas entre os monstros ocorrem, nesse caso servindo bem à história e evitando momentos gratuitos. Isso transforma cada uma das lutas, aparentemente, em uma motivação diretamente relacionada aos aspectos de Kong, seja para observarmos sua ferocidade, ou a sua relação de proteção e autodefesa, ou na relação multifacetada com a figura do homem, que ao mesmo tempo pode ser ameaçador, insignificante, amoroso e/ou indefeso. Além disso, temos também a tensão produzida pelo filme, com momentos de muita criatividade quando vemos os humanos sendo ameaçados pelos diversos monstros, pois trata cada uma das criaturas através de suas particularidades. Isso gera excessivamente um clima no qual os personagens podem ser mutilados, erguidos, perfurados, devorados ou esmagados em qualquer momento, o que deixa o espectador num clima eterno de suspense durante a história (com quebras de narrativa muito inusitadas e excêntricas, ao mesmo tempo).

Os aspectos técnicos relacionados à construção da imagem fílmica são essenciais para a experiência cinematográfica que a obra passa. O principal deles pode ser a linguagem cinematográfica utilizada para a obra, em que reconhecemos logo de início a forma como o diretor usa o 3D com a intenção realmente de inserir o espectador nos ambientes da narrativa. Mesmo com poucos e breves momentos nos quais ele “joga” elementos cênicos no rosto do espectador, utiliza o 3D de maneira bem abrangente, condicionando e posicionando os personagens e os monstros com a profundidade de campo geralmente mais extensa e não muito reduzida. Isso, ainda que existam alguns instantes em que utiliza do hack focus (mudança de foco do fundo para frente e vice-versa) como forma de direcionar o olhar, o que também não atrapalha e nem banaliza o 3D no geral.

Sobre essa característica de direcionar o olhar do espectador, Vogt-Roberts conseguiu ser bem criativo, pois em alguns momentos também utiliza da ideia de “quadros dentro do quadro fílmico”, algo clássico no cinema hollywoodiano – estes são pequenos enquadramentos, através de objetos cenográficos em meio às cenas, para criar um quadro cênico dentro do enquadramento do filme, o que direciona rapidamente o olhar do espectador para conteúdo desse quadro menor. Esse fator, criando um aspecto de realidade, nos ajuda a suspender o fator da descrença no filme, algo importante para que o espectador tenha imersão e envolvimento na história, a ponto de vibrar (internamente) com os momentos de catarse na narrativa.

Complementando essa ideia sobre a linguagem fílmica, também podemos citar a forma como Vogt-Roberts trata a carnificina no filme (atendendo a quesitos que permitem uma larga faixa etária assistir à obra). O diretor utiliza de momentos tanto pela forma clichê (como o tradicional corte de câmera, no momento do ataque, para um plano no qual esborrifará o sangue em algum lugar), quanto por ideias criativas (como a cena em contra-luz que mostra um dos personagens sendo atacado e esquartejado por monstros voadores). Isso é importante quando lembramos que a primeira versão (1933) era direcionada, em meio a outros gêneros, como um filme de horror, e independentemente dos parâmetros de censura que existiam naquela época, uma temática de terror nos dias atuais exige, pelo menos, o PG-13 (faixa etária de 13 anos acima), o que restringiria o público-alvo no cinema, mesmo que fosse pouco. Isso além do trabalho com os grandes planos gerais da narrativa, que além de criar expectativa pelo momento de aparição ou ataque dos monstros, também é idealizado pelo fato do lançamento em IMAX, que pelo enorme formato também influencia na experiência de assistir ao filme, embora não seja excessivamente uma obrigação para se divertir com a obra.

Como forma nostálgica, se relacionando com o primeiro da franquia King Kong, através da direção de arte observamos os aspectos de iconicidade que esse reboot busca, sempre se referindo ao filme de 1933. Alguns dos ícones do clássico aparecem através da utilização de seus elementos e motivações, como: (1) Kong batendo no próprio peito; (2) o resgate e o relacionamento com a principal figura feminina da história; (3) os veículos aéreos sobrevoando ao redor da figura do monstro, atacando-o; (4) os monstros pré-históricos e insetos gigantes; além (5) dos nativos da ilha. Há também a sugestão narrativa de que Kong seria capturado, como na obra de 1933, mas essa possível referência fica para uma continuação mais a frente. Dessa maneira, percebe-se que, embora a obra tenha uma história diferenciada do original, o aspecto nostálgico se mantém e também é importante para a experiência que o filme propõe. Isso também se conclui através da cena pós-crédito, pois se relaciona não apenas com o futuro crossover já mencionado pela produtora (com Godzilla, de 2014), como sugere que a franquia dessa série fílmica, MonsterVerse, irá resgatar diversos títulos da franquia Godzilla, como: Mothra (1961), Rodan (1956) e Ghidorah, the Three-Headed Monster (1964).

Finalizando, Kong: Skull Island é uma obra em que foi buscado o novo e o velho, com sua equipe baseando-se em elementos icônicos, mas preocupada com uma inovação à história, essencialmente pelos aspectos técnicos que tanto podem modificar e/ou diversificar uma obra com teor nostálgico. Um sentimento que parece ser buscado constantemente pelas atuais produções à cultura pop no cinema, e que continuarão com esses novos filmes de monstros.

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