Desu Nôto: (re)Iluminando seu próprio Cinema

Por Renan Claudino Villalon

Uma adaptação fílmica que atende aos fãs através de um específico trabalho sobre o seu cânone. Com uma ideia já presente hoje nas tendências hollywoodianas, ainda que dentro de uma produção japonesa, Desu Nôto: Light up the NEW World (Death Note: Iluminando um Novo Mundo), de Shinsuke Sato, é uma obra que torna-se peculiar por trabalhar uma história de mistério e investigação através de seu multigênero narrativo. Isso ao mesmo tempo em que: está ligada ao animê; adapta sua respectiva versão em mangá; e permanece adentrada na recriação de seu universo nos cinemas.

Mesmo que essa primeira impressão nos remeta a uma obra com múltiplas referências, das quais precisaríamos ter conhecimento para uma experiência completa, esse quarto filme consegue manter-se compreensível sem essa necessidade, contanto que o espectador tenha acompanhado a série cinematográfica (no mínimo!). Ao mencionar que as fórmulas de Hollywood aparentam estar na ideia conceitual desse filme, não me refiro, simplesmente, à crescente espetacularização narrativa, mas sim à nostalgia fílmica.

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DeathNote: Iluminando um Novo Mundo terá exibição especial. (Foto: Divulgação)

Com diversas ideias resgatadas de seu próprio universo, utilizando não apenas da temática, mas também dos roteiros passados e dos ícones visuais já tradicionais, o filme utiliza de uma fórmula já presente nos atuais Star Wars VII (2015), Jason Bourne (2016) ou Alien Covenant (2017): repetir aspectos narrativos que causam um sentimento de reidentificação no fã. Ou seja, o famoso e já termo comum na cultura pop: fan service (uma referência presente numa obra artística e que é reconhecida apenas por um fã).

No caso de Desu Nôto, sua história é composta por uma contínua mistura dos roteiros encontrados nos primeiros live-actions (2006), a partir de personagens reimaginados com base nesses filmes, além destes desenvolverem as mesmas motivações narrativas. E isso faz com que todas as obras anteriores reapareçam como as essenciais referências, pontualmente, tanto para a premissa da história quanto para diversos momentos e resoluções durante o filme, caminhando até o seu desfecho.

Isso significa que a obra é apenas uma repetição de tudo o que já vimos antes? Não necessariamente, já que o tom de seriedade e seu clima de suspense e urgência enaltecem o horror fantasioso e misterioso da obra – o principal ponto positivo de sua atmosfera – fazendo com que nos interessemos cada vez mais pela investigação policial.

Como o leitor deve ter percebido, há uma peculiar mistura de gêneros fílmicos que compõem Desu Nôto, principalmente para aqueles que não assistiram ao animê ou leram o mangá. Além de uma multiplicidade percebida pelo excesso de conflitos (com exatos seis death notes a serem procurados pelos personagens!), sua característica multigênero é outra questão que pode dar um nó na mente do espectador, algo comparável às inúmeras regras presentes nos cadernos da morte – e claro, nem mesmo os shinigamis (Deuses da Morte) as conhecem por completo, pois a cada novo filme elas se multiplicam!

Durante as 2h15min de filme visualizamos uma mudança de tom e gênero que expandem a história a várias temáticas. Começamos num clima de horror místico (com os Deuses da Morte e o envio dos death notes à Terra), nos deparamos com suspense e melodrama policial (com direito a crimes inesperados e amores perdidos durante as investigações), e chegamos numa ambientação de espionagem e ação espetacularizada (com personagens ocultos, reviravoltas dramáticas e clímax conduzido pela ação intensa).

Mas essa intensa transposição de temas não chega a ser mais complexa que o desenvolvimento da história, e consequentemente da investigação, já que há um acúmulo de informações que forçam os personagens a pararem a narrativa para explicar o contexto no qual se encontra a trama, em momentos pontuais – com características episódicas, por também subdividir a estrutura narrativa. Esse é um dos pontos em que podemos dizer que o filme é direcionado aos fãs do universo, mas pelo fato de ser um tanto autoexplicativo, enxerga-se nisso a breve intenção de atender um público mais geral.

Agora, sem dúvida, uma das melhores recompensas está na atuação, com um elenco que traz uma interpretação precisa às funções narrativas de cada personagem, indo desde a simplicidade para alívios cômicos até os momentos mais intensos, quando os mesmos aparecem sob conflitos internos na trama.

O destaque fica para o personagem Ryüzaki (Sosuke Ikematsu), o sucessor de L (Kenichi Matsuyama), com Ikematsu reinventando a figura de L utilizando de breves gestos que ecoam na interpretação caricata de Matsuyama. Uma ideia que mostra a mudança e a permanência nesse personagem é o uso de uma Máscara de Hyottoko mais sombria e assustadora do que a usada por L nos filmes passados, que já ajuda a definir um aspecto caricato (próprio de animês) ao mesmo tempo em que vemos um personagem mais irônico e sarcástico, se comparado à atuação de Matsuyama. E de maneira geral, essa foi uma fórmula bem realizada pelo elenco, já que grande parte dos atores buscam ações que ecoam nas interpretações vistas em 2006, permitindo reidentificações por parte do seu público-alvo – como o personagem Shion (por Masaki Suda), uma herança da atuação para Light (de Tatsuya Fujiwara).

Observando a parte técnica, temos uma avanço do CGI que deixa obra belíssima em sua estética, já que unida ao contraste da fotografia permite momentos em que realmente identificamos Deuses da Morte entre nós, e não simplesmente bonecos digitais estranhos com gestos incomuns. Isso além de objetos icônicos copiosamente resgatados dos filmes anteriores, usados de uma forma que complementam a narrativa, mostrando uma direção de arte bem pensada.

E o maior elogio fica aos shinigamis, pois a textura visual e sua composição em CGI tornam esses “espíritos digitais” realmente sombrios, com múltiplos detalhes visuais (como o shinigami Bepo), com motivações estéticas e narrativas ligadas às primeiras versões (como Arma, que relembra Remu, do 2º live-action) e com seus aspecto de realidade e presença narrativa mais intenso (como o tradicional Ryuk, aqui reanimado). Entretanto, ainda que a evolução digital permita maior realidade aos Deuses da Morte, é ótimo perceber que a trama não é focada unicamente nisso, como se fosse uma propaganda do estúdio a mostrar como se deve construir shinigamis, o que torna a presença deles ainda mais legal de acompanhar, exatamente por não ser gratuita.

Dessa forma, mantendo a premissa sociopolítica já reconhecida na série do cinema e baseando-se no resgate dos live-actions já vistos, Desu Nôto: Light up the NEW World é um horror policial que agrada por saber exatamete o universo no qual está presente, mas sem utilizá-lo unicamente como ferramenta de fazer dinheiro. E essa pode ser a maior recompensa aos fãs mais tradicionais, pois o cineasta e sua equipe respeitam o cânone e o utilizam numa curiosa e boa tentativa de seguir em frente na história, pelo menos até o dia em que seus nomes estiverem escritos num certo caderno…

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