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Editora Record lança os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2020

Terra nos cabelos, do gaúcho Tônio Caetano, foi o escolhido entre os 666 concorrentes na categoria contos e Encontro você no oitavo round, do capixaba por adoção Caê Guimarães, levou na categoria romance, sendo o vencedor entre quase 700 inscritos. O livro de contos tem apresentação de Marcelo Moutinho e de Ana Paula Maia e o romance, de Samarone Lima e de Renata Pimentel. A premiação tem curadoria de Henrique Rodrigues

Chegaram às livrarias os dois vencedores do Prêmio Sesc de Literatura, a mais relevante premiação literária para novos escritores no Brasil. Na categoria de contos, Terra nos cabelos revela as vozes femininas do autor gaúcho Tônio Caetano, que tece suas narrativas de modo delicado e sensual.  Já o romance, Encontro você no oitavo round, do escritor Caê Guimarães, capixaba por adoção, é um monólogo poético de rememoração narrativa, que revela ao leitor a surpreendente trajetória de seu protagonista, um lutador de boxe que abandonou a poesia depois de um início promissor. Criado em 2003 pelo Sesc, o prêmio é uma parceria com a Editora Record, responsável por publicar e distribuir os livros vencedores. O concurso tem o objetivo de revelar novos escritores e, assim, renovar o cenário literário brasileiro e incentivar a cultura. Em 2020, o Prêmio Sesc de Literatura recebeu 1358 inscrições, sendo 692 romances e 666 livros de contos.

(foto: divulgação)

ENCONTRO VOCÊ NO OITAVO ROUND
Caê Guimarães

144 pág. | R$34,90

Ed. Record | Grupo Editorial Record

Socos, cicatrizes, quedas, redenções e um zumbido no ouvido, fruto de uma vida marcada por pancadas. Essa é a história de Cristiano Machado Amoroso, um pugilista que chegou bem perto do topo da sua carreira aos 25 anos, mas sofreu um nocaute que nunca esqueceu. Aos 40, antes de integrar ao time dos aposentados, ele tem sua última luta e uma proposta: em troca de uma boa quantia em dinheiro, o boxeador deve entregar o resultado, sem que o adversário saiba, no quarto round.

A narrativa, em primeira pessoa, nos apresenta também o cotidiano da periferia. O vizinho Magro e sua família de doidos, a amizade com o sapateiro, o bairro esquecido coalhado por cortiços e, claro, a jornalista que fará repensar o rumo da sua história são detalhados de forma fluida e delicada, pelo protagonista. Vivaz e irônica, Esther é mais do que uma repórter curiosa pela história de um pugilista no fim de carreira. Ela também é fã das obras literárias de Cristiano, que abandonou uma promissora carreira, mas que agora retorna para, quem sabe, um acerto de contas.

Neste Encontro você no oitavo round, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2020 na categoria Romance, a irmanação entre boxe e escrita surge com rara potência. Até o último round, não sabemos se o pugilista vai beijar novamente a lona, conforme o combinado. O estranho mistério que acompanha os que apanham muito, mas nem sempre entregam os pontos.

Caê Guimarães nasceu em 1970 e vive em Vitória (ES). É escritor, poeta, jornalista e roteirista. Tem cinco livros publicados, entre poesia, conto e crônica. Encontro você no oitavo round, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2020, é seu primeiro romance.

(foto: divulgação)

TERRA NOS CABELOS
Tônio Caetano

112 pág. | R$32,90

Ed. Record | Grupo Editorial Record

Em Terra nos cabelos, Tônio Caetano apresenta histórias emocionantes protagonizadas por mulheres. Entrelaçadas por um fio invisível que compartilha a força de suas histórias, as personagens apresentam situações reais que, ora atuais ora de décadas passadas, nos fazem refletir sobre autoconhecimento, medos, inseguranças e, sobretudo, o que é ser mulher – em contextos, idades e épocas diversas.

Ao longo de 15 contos, o livro se propõe a uma espécie de investigação do íntimo, das descobertas do outro, e instiga o leitor a mergulhar na vida dos personagens. A menina que vê a mãe partir e se aferra a uma prolongada espera, a esposa infeliz que se aventura na casa de swing, as adolescentes enredadas nas primeiras experiências sexuais, em ritos de passagem e de iniciação. São, todas elas, personagens em contenda com o mundo, seja no âmbito familiar ou no universo da sociedade de forma mais ampla. Tônio Caetano costura as histórias de forma que a ambiência se amalgama a um sentimento difuso de inadequação, de não pertencimento.

A poética presente em Terra nos cabelos revela a chegada de mais um autor talentoso ao cenário da literatura brasileira. Semeando boas histórias que fazem refletir as minúcias da vida comum, sua estreia é bem-vinda, e seus textos, cheios de inquietações.

Tônio Caetano nasceu em Porto Alegre (RS), em 1982. Trabalha como servidor público municipal e é especialista em Literatura Brasileira pela PUC-RS. Integra as coletâneas Contos de mochila, Minicontos de amor e morte, Planeta Fantástico e Ancestralidades: escritores negros. Em 2020, venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2020, na categoria Contos, com o livro Terra nos cabelos.

Livro de contos vencedor do Prêmio Sesc é lançado pela Record

Em “Receita para se fazer um monstro”, com narrativa curta e seca, Mário Rodrigues cria personagem infantil que, no limiar da crueldade e da violência, questiona os limites da empatia e da antipatia

Editora Record lança livro de Mário Rodrigues, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. (Foto: Divulgação)
Editora Record lança livro de Mário Rodrigues, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. (Foto: Divulgação)

O protagonista de “Receita para se fazer um monstro” é um menino sem nome que se define como um mandacaru (“Tenho só espinhos e um deserto à minha volta”), cujas traquinagens infantis extrapolam para uma violência latente, que explode ao longo da narrativa. Mas, ao mesmo tempo, ele demonstra, mesmo que em atos de vingança, um certo sentido de justiça, ainda que torto. E até uma carência, que pode redimi-lo das maldades, aos olhos do leitor. Ou não. Está na força desse personagem, segundo o seu autor, Mário Rodrigues, o grande mérito do livro e que o fez vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2016, na categoria Contos.

“O protagonista de ‘Receita para se fazer um monstro’ tem um poder carismático torto que dialoga com o leitor, porque questiona mesmo os limites da empatia e da antipatia. Se, por um lado, há em certos contos um asco latente por suas atitudes e sua fala, em outras histórias brota a nossa condescendência. E ainda em outras nos reconhecemos quase como num espelho”, diz o autor, em entrevista para o blog da Record.

Com textos curtos e uma narrativa seca, com referências ao universo pop dos anos 80, Mário Rodrigues transpõe para a linguagem a crueldade do seu principal personagem, na forma como ele quebra algumas frases (“como se quebrasse dentes ou narizes de meninos rivais”) e escolhe a pontuação. “O protagonista só usa ponto (porque lembra tiro), travessão (porque lembra facada) e dois-pontos (porque lembra tiro de cano duplo)”, diz o autor.

Professor de literatura e escritor, o pernambucano de Garanhus celebra o fato de o prêmio este ano ter sido vencido por dois escritores do Nordeste (o baiano Franklin Martins ganhou na categoria Romance com “Céus e terra”) e, no ano passado, por duas mulheres. Mas ressalta a qualidade literária das obras. “Para além das obras vitoriosas, o prêmio geralmente descobre projetos literários, escritores mesmo na acepção profunda da palavra. Fico feliz que essas coincidências aconteçam. Duas mulheres, dois nordestinos… Ano que vem dois negros, etc… Mais do que privilegiar essas vozes, acredito que é forma de mapear uma produção qualitativa que vem sendo feita de maneira discreta e que merece ser percebida. Julgo também haver um certo cansaço de uma literatura autorreferente por si só, logo a busca por novas experiências literárias se impõe.”

 O livro chega às livrarias em novembro, pela Record, que edita, todos os anos, as obras vencedoras do Prêmio Sesc de Literatura.